segunda-feira, 19 de agosto de 2013 0 comentários

Negação


Paira no ar
a sensação arenosa da obrigação
de ter que existir como antes:
leve, clara, feliz.

Mas assim,
como a tudo a que se obriga,
há de haver um tempo
de negação da existência
para que ela volte a ser:
leve, clara, feliz.
segunda-feira, 22 de abril de 2013 0 comentários

Pretensão




Entre o vazio que se opõe
e o abismo que se impõe,
resta a expressão suspirada. 

Gostaria que fosse para mim
e que supusesse versos sem fim
à minha alegria revisitada. 
sábado, 29 de dezembro de 2012 1 comentários

Guardado




Entre esperas inúteis,
passada a agonia,
o que semeio?
Poesia.

Trocada, sempre trocada,
sem, ao menos, saber pelo quê.

E meu corpo paga pela tua ausência,
por não ter podido te amar,
por não ter pelo que te perdoar.

Os sonhos, coitados, tão maltratados,
cheirando a guardado,
não querem esperar.

Arranca-me os olhos, mas faz-me partir.
Mais triste que ser só é não ser.
E sendo ninguém, como – ainda – posso sofrer? 
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012 0 comentários

Profecia


Entre tantos finalmentes, 
o que recomeça não se sabe, enfim. 

Findam-se os dias, as noites, os caminhos...
E a estrada sempre tem um fim para quem não continua. 

Findam-se os ritos, as farsas, os medos...
E os ciclos são vícios para quem não suporta dar-lhes fim. 

Findam-se os sonhos, as esperas, os amores...
E os filhos são registros de finalmentes dos romances.

Findam-se os versos, as rimas, as estrofes...
E para a poesia, finda a vida, resta ser sem fim.
terça-feira, 6 de novembro de 2012 3 comentários

Que ao amor não convém



Pau de chuva encantado
traduz o gingado
que, só ao teu lado,
meu coração tem.

Recebo notícias aos montes
de sonhos distantes
mesmo que não contes
por um bom vintém.

Sorrisos e falsas canções,
muitas sensações,
mas as ilusões
às vezes convêm.  

Lembranças, lindas revisitas,
merecem ser ditas,
mesmo que não sintas
mais nada e além.

Foi tudo em bom tom
ó meu rapaz bom
tu tinhas o dom
que poucos detém.

Mas fomos teimosos,
quem sabe medrosos,
insistimos vaidosos
no que, ao amor, não convém.
terça-feira, 30 de outubro de 2012 2 comentários

a r r i t m i a

Das sensações todas,
as que mais incomodam
palpitam.

E tu, tão acostumado a automatismos,
às vezes,  silencias,
parece que escapas.

Perturbado por reentradas,
sem ritmo, oscilas.
Coração, aonde vais?

Entre conduções alentecidas
e amplitudes aberrantes,
resta entender tuas ondas dissonantes.
sábado, 13 de outubro de 2012 1 comentários

Outros tempos





Entre medos bobos, o intocável – agora – é bem ali.
E já não posso sentir o mesmo.
Entre certezas absurdas, a resposta – agora – é o que menos interessa.
E já não posso sentir o mesmo.

As esperas inúteis também me foram proveitosas
E a vida, mesmo com suas transgressões, seguiu seu rumo.
Aquelas velhas juras ainda merecem ser sussurradas.
E continuo a debruçar-me por entre versos em noites cortadas.


Quis não ser descoberta ao passo que me despia.
Esquivei-me de quê? 
Aprecio a generosidade da entrega do tempo aos meus caprichos. 
segunda-feira, 24 de setembro de 2012 1 comentários

Árido

Presentinho da minha amiga Marta Leal... 




À Rousi Cavalcanti
Quando a alma cala o desejo
E entre o respirar não cabe o beijo
Quando uma porta
Corta o que havia para dizer
E cala o ser

O silêncio se instala
O medo enche a sala

A estrada apressa
O passo para o raso

O raso de nós

No fundo da alma
O árido da palma
A paisagem se cala
A alma se cala
O amor se apaga


sábado, 22 de setembro de 2012 0 comentários





Foi-se o tempo em que perder tempo era fundamental para entender-ser com ele. Porque tempo perdido não é tempo que se ganha, mas é tempo sentido que, só por não ter existido, já valeu a pena ter-se vivido.

Mas, se o tempo que vos falo é o tempo que vos entrego, é porque tenho tido tempo de ter tempo para perder-me no tempo.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012 2 comentários


  
O passado - agora - não importa, nem os porquês.
E não há mais distinção entre desejar e ser o desejo. 
  Somos um mar de possibilidades que, apenas por existir, basta.
domingo, 22 de julho de 2012 0 comentários

...



Cada nuvem que se desfaz leva consigo uma ilusão.
Para onde vão os sonhos desfeitos?
E as nuvens, para onde vão?
domingo, 6 de maio de 2012 3 comentários

Nada





Nada do que eu diga agora adiantará
porque não adianta sentir com atraso.

Nada do que eu diga agora impedirá
porque não se impede o passado.

Nada do que eu diga agora restará
porque não resta o que não é sobra.

Nada do que eu diga agora resistirá
porque não resiste quem nunca quis lutar.
  
Nada do que eu diga agora silenciará
porque não se silencia o que já é mudo.



quinta-feira, 29 de março de 2012 1 comentários

Desencanto



É complicado lidar com as verdades, sejam elas quais e quantas forem. E mais complicado ainda é lidar com o que não se vê. Por que isso de "o que os olhos não vêem o coração não sente" é muito bom de dizer quando não é com você.

Meto-me de enxerida que sou. Devo ter a língua maior que os pudores, mas é que eu ainda me sinto do tempo em que era digno indignar-se.

Dispam-me de rotulações. Nem racista, nem sexsista, muito menos extremista. Prefiro ser realista, mesmo quando a realidade se esconde entre falsas intenções.

É que hoje eu estava especialmente reflexiva. Queria entender o que dizem as juras de amor. Ouvi Beatles, cantei com Chico e li Cecília. No fim, restaram suaves impressões das reproduções de versos e canções que só exigem sinceridade de quem os repete.

Me perdoem os hipócritas, mas é impossível manter o encanto por alguém que, sem o mínimo remorso, olha nos olhos e faz juras de amor a quem, na noite anterior, estava traindo.

Não adianta. Certas desculpas são indesculpáveis.
terça-feira, 13 de março de 2012 2 comentários

Recife



Tu que tantas vezes me deixa perdida,
que tantas vezes me enlouquece,
não me guardes sob medida,
não me escondas o que entontece.
Acalma minha eterna despedida
e dissolve-me no que só em ti anoitece.



sexta-feira, 7 de outubro de 2011 6 comentários

Às vezes


Às vezes falo alto esperando que alguém me leia;
Outras vezes escrevo baixo para que alguém me ouça.

Às vezes ninguém me ouve;
Outras vezes ninguém me lê.
Mas alguém sempre finge se importar
enquanto eu finjo compreender.

terça-feira, 13 de setembro de 2011 5 comentários

Contra-senso



Me ergo na cena,
chuto o balde,
mas ainda assim me consumo.

Sinto pena,
sinto vontade,
não me acostumo.

Adormeço
questionando o contra-senso
e todo o arrependimento.

Mas não esqueço
o que não penso,
o que me traz alento.

Não sei se é amor
Na verdade, sei o que não é.
O que seria então?

Não consigo me desprender dos sentimentos, nem me abandonar.
Por isso sobro, sou desperdício
e me alimento dessa imensa dificuldade de me libertar.

Mas quanto disso é real ou fictício?
Não adianta,
fugir é inútil.


sexta-feira, 9 de setembro de 2011 6 comentários

Velhice


Deixa dessa meninice
que o amor é mesmo uma tolice
com traços de esquisitice
e não há maluquice
que cure essa burrice.
quarta-feira, 7 de setembro de 2011 4 comentários

"Independência ou morte"?

Ontem houve um pronunciamento presidencial antes do Jornal Nacional e por alguns instantes eu deixei de lado o computador para ouvir falar do significado dessa data, da crise mundial e de como o Brasil é o melhor país do mundo, sem modéstia!
E eu resolvi quebrar um pouco o lirismo que tem o blog e um pouco da minha rotina porque me senti na obrigação de me indignar. É que eu ouvia que o povo brasileiro tem motivos de sobra para ter esperança em um futuro melhor e eu não conseguia imaginar o porquê disso, se nem com provas reais a Deputada Jaqueline Roriz foi condenada; se o salário dos Juízes do STF – que já é alto - aumenta 86% enquanto o salário dos professores – que já é baixo – apenas 4%.
Esperança de quê? De que os parlamentares que absolveram uma colega corrupta não sejam corruptos? De que o voto secreto não é um subterfúgio?
Mas não vou culpar os políticos, o sistema e muito menos a sorte, ou a falta dela. A culpa maior é do povo! Isso mesmo, a culpa é NOSSA por nos acomodarmos no “estou bem, obrigado”, no “não é da minha conta ou no “podia ser pior”.
Milhões de pessoas se reúnem todos os anos na parada do orgulho gay, na marcha Cristã e agora na mais recente marcha, a da maconha, mas no país de mais de 190 milhões de habitantes, apenas 10 mil resolveram sair às ruas contra a corrupção.
O que é mesmo que se comemora hoje? Alguém me responda, por favor, independência de quê? Se nós continuamos reféns dos impostos, dos altos juros, da criminalidade, do analfabetismo, da miséria e principalmente dos nossos "ilustríssimos" governantes corruptos.
Somos reféns do comodismo de quem vende voto e de quem só se preocupa com o seu umbigo e a sua própria conta bancária!

7 de Setembro! "Feliz" dia da Hipocrisia Nacional!
segunda-feira, 5 de setembro de 2011 6 comentários

Último diário de bordo

Aos melhores companheiros do mundo

Sempre esperamos pelo momento em que algo vai acontecer e, de forma arrebatadora, vai nos projetar para o inesperado e subverter os nossos sentidos. É impossível prever quando vai acontecer. Ninguém sabe do inesperado, mas todo mundo sabe acontecer.

Quem iria imaginar que conheceríamos um exímio executor da dança maori; que galinhas cantam música sertaneja; que o bebê chorão só vai acalmar quando colocar a língua no cotovelo; que era tão importante conseguir falar o quatro na conta do 21 e que se grita desesperadamente quando se está em Marte?

Quando tudo foi uma questão de comprar o risco, nós vimos quem saiu do mundo de princesinha direto para o do lobo mal; quem dançava o mais vibrante possível pentelhando as coitadas das “estátuas”; quem sabia mais nomes que o funcionário do cartório de registro civil e até quem era especialista em xingamentos.

Às vezes atropelamos os jogos, às vezes nem queríamos jogar, mas foi soltando uma carta de cada vez que descobrimos que o street dance é bem mais brasileirinho do que se pensa; que a macaca dá uma coçadinha durante a dança do acasalamento; que tem gente que adorou ter uma bebida como sobrenome e que a volta pra casa sempre pode ser mais divertida.

Era impossível não ver que o único homem no planeta que tem TPM fala pra dentro; que tem gente que acredita que tem muitas caras; que -entre as monitoras- os gritinhos da "lôra" são únicos; a bronca da morena é dura e a pequena faz de tudo pra ver todo mundo bem.

No fim, quem se sentia insensível se desmanchou em lágrimas, quem chorava por tudo engasgou e não conseguiu falar e eu me senti ainda mais singular ao ver a “autista” que não gosta de fotos, nem de aniversários, me entregar seu riso e suas lágrimas.


Como não perceber tanta mudança? Como não mudar junto? Transbordávamos de tanta ansiedade pela intervenção e pelo primeiro contato com o olhar alheio, que nem nos demos conta que a verdadeira intervenção já havia acontecido. Não éramos os mesmos de antes, não depois de cada toque, de cada olhar.

Aos poucos, o nervosismo foi tomando corpo em mim e ninguém pode imaginar como eu quis morrer quando percebi que havia chegado a grande hora e estava sem o meu nariz. Logo o nariz? Voltei à estaca zero, ao antigo pavor do picadeiro. E uma tempestade de insegurança se apossou de mim por alguns instantes até eu encontrar o olhar penetrante do meu gordo preferido bem alí - extremamente disponível - até eu ouvi-lo dizer “eu nunca emprestei a ninguém” enquanto me entregava um pedacinho do seu coração.

Conduzidos pela Gentileza, aprendemos que “máscara não se coloca, se veste” e a vida fez questão de vestir as nossas. Admirando ainda mais a responsabilidade do nariz que usava, lancei meu olhar mais disposto e recebi os melhores sorrisos. Compartilhei de toda palavra e de cada silêncio. E alguém - se quiser- tente descrever o que eu senti naquela manhã porque eu – sinceramente - não consegui.

E o que eu poderia dizer ao meu companheiro da calça "troncha"? Ele que me viu desabar na ladeira e não tentou me levantar, nem me consolar. Não sei como agradecer. Foi indefinível ver ele se atirar ao chão e não me deixar morrer de vergonha sozinha... ele nem sabe, mas - ali ao meu lado - transformou o pior momento no mais peculiar, e eu fui uma perdedora feliz.

Depois que tudo acabou, ainda embebida de tanta energia, de tanto sentimento, foi impossível não lembrar das nossas evoluções e de como foi saboroso caminho. As inúmeras imagens que passavam pela minha cabeça poderiam até ter um tom de nostalgia, mas elas tinham o gosto dos lugares especiais da memória.

No meu corpo escoriado e marcado por todos aqueles pequenos gestos, ficou a imensa felicidade de ter me entregado a liberdade de errar e de ser ridícula, a liberdade de ser eu.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011 4 comentários

...



E quando essa vontade súbita de chorar passar,
quero poder acreditar
que de tanto molhar, secou
mas enfim estancou.
 
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