quinta-feira, 5 de agosto de 2010 6 comentários

Samba nas entrelinhas

"Pra onde vão desejos?
palavras sem razão?
Pra onde vão palavras?
Versos ao vento vão".
(Zeca Baleiro)



Alguém já se sentiu uma aventura? Não aquelas do tipo psicodélicas que levam a loucura e provocam delírios seguidos de um suor intenso. Falo de brincar de sentir e sentir muito depois de brincar.
É interessante pensar sobre isso por que acredito que ninguém se propõe a algo que o dicionário deveria definir como uma relação fugaz que promove divertimento e prazer momentâneo, porém sem a menor intenção de acontecer.
Quem foi o mais intenso: o que fez firulas e declarações aos sete cantos ou o que, mesmo sem entender porque, se manteve fiel ao que sentia? E quem é capaz de comparar?
Vale mais penar por perder os sentidos ou sentí-los com pena? Pesar, ponderar, delirar? ... Já não importa quantas doses de tequila. O nome escrito no vidro do carro parecia sussurrar algo, mas nada dizia e já deve ter se apagado. A espera por um telefonema - aquela noite - foi vã. As mensagens? Adereços coloridos. A empolgação era empolgada demais e qualquer redundância anda longe de ser exagero.
O grande prazer dos sentidos é uma volúpia (im)perfeita e (in)completa por (in)compreensão das entrelinhas. Mas quem se detém a ler nestas tais entrelinhas?
Entre tantas intenções, ou nenhuma, fica a vaga sensação de haver vivido algo que não sabe como ser lembrado. E tropeçando por entre textos e melodias, resta mais uma pergunta: quem vai cantar nosso samba?
quarta-feira, 28 de julho de 2010 14 comentários

Apalpar


"Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio"

(Metade - Oswaldo Montenegro)






Decidir é complicado. Nunca fui a melhor nem a pior aluna da turma, mas sempre soube que queria ser médica, mesmo tendo feito meu primeiro vestibular para enfermagem. Passei e cursei dois anos, até o dia que me perguntei o que eu tinha feito do meu sonho. Eu estava feliz, porém incompleta. Queria mais, chorei por mais e decidi lutar por muito mais.

Não esperava que fosse fácil, mas não tinha noção das minhas limitações. Poucos acertos e incontáveis erros me levaram a quatro anos de tentativas frustradas. Culpar a ansiedade, o estado emocional ou qualquer adversidade que tenha acontecido durante esse período pode até ser cômodo, um bom argumento, todavia nem de longe justifica minhas falhas. E falhas são erros, defeitos que carecem de correção, não de explicação.

Minha caminhada é repleta de tombos e diante do último quase sucumbi. Estudar tinha perdido a graça, passou a ser obrigação e não um prazer. A alegria de dizer que queria medicina deu lugar ao sorriso amarelo de quem já não sabia mais.

Não foi fácil olhar para as pessoas que me amam e dizer que não consegui. A nostalgia deixada pela sensação de impotência não me permitia respirar e tudo o que consegui foi chover de tristeza. Quis fugir para não ter de encarar o fracasso, mas fiquei e, tentando apalpar o que anseio, recomecei.

Hoje, tenho voltado a sorrir e a me divertir coma pilha de livros e de papéis ao meu redor sem deixar de sorrir para o resto do mundo, pois aprendi que a felicidade não está em um só momento, ela acontece um pouquinho todos os dias.

Onde está a linha tênue entre o sonho e a ilusão? Eu não sei, mas sei que se ainda não deu certo é porque tudo o que fiz não foi tudo o que posso. Cada batalha me fortalece para a próxima e desistir seria aceitar que não sou capaz, e eu sei que posso ir além.

quinta-feira, 22 de julho de 2010 20 comentários

Retrovisor

"Você dizia que me amava e me queria
E que jamais em sua vida
Gostou de alguém assim

Eu era tudo pra você
A flor do bem querer
Que nunca ia poder viver sem mim

Tanto cuidado, tanto mimo, tanto dengo
Cada dia mais crescendo
Dava gosto de se ver

Como se fosse transmissão de pensamento
Você ligava pra mim
Eu tava pensando em você

Diga onde foi que errei
Aonde vacilei
Fiquei de fora

Se foi tudo uma ilusão
Me dá meu coração
Que eu vou embora"

(Me dá meu coração - Santana)

Se todos os dias fossem iguais a vida seria um saco. Se todas as pessoas fossem iguais seriam, apenas, eu. Se todos os sentimentos fossem iguais seriam saudade. E seria eu, no mínimo, teimosa se discordasse de Darwin e da sua teoria evolucionista: só sobrevivemos se evoluímos; só evoluímos se nos adaptamos; só nos adaptamos se mudamos; mas a verdade é que algumas coisas deveriam permanecer exatamente como são.
Não que eu não mude nem que não goste dos efeitos da mudança, não é isso. O que me incomoda é o porquê de tudo. São os motivos ou a falta deles que, quase sempre, não são dignos. E se para crescer é preciso mudar e para mudar é preciso sofrer, talvez eu não queira mudar e muito menos sofrer. É uma lógica bobinha, eu sei, mas necessária para o auto-entendimento.
No fim das contas, é essa metamorfose toda e tudo que a acompanha que nos faz ver - e sentir - diferente . Ela nos retira da comodidade da inércia e de uma suposta segurança que julgávamos ter e nos expõe a novos fatos e a velhas falhas. E qualquer ato falho será um defeito na memória, um desejo inconsciente.
Se, hoje, sou o melhoramento genético do que vivi, sabe Deus o que vivi. O fato é que tem dias que a vida resolve nos dar um caldo só pra nos fazer perceber que ninguém - e eu digo NINGUÉM- é seguro o suficiente que não possa cair e nem tão bom que não possa ser substituído.
A minha carruagem tem retrovisor, pois sei que vão-se as causas, mas ficam as intenções - as mudanças e os textos-. Sobraram explicações e o que faltou ainda deve estar por aí perdido naquela antiga empolgação. "Que o teu afeto me afetou é fato", mas sempre chega a hora de ir - e eu vou embora.

quarta-feira, 14 de julho de 2010 14 comentários

O canto



Daqui vê-se muito:
estrelas que brilham por pessoas
vozes abraçando-se na simplicidade do instante
olhos que se sentem sob-medida, desmedidos
um agradável nada repleto de tudo.

Desafinos afinam os sorrisos
Um momento para a eternidade!
Ou seria a a eternidade por este momento?!
Jarros indispensáveis por toda parte.

Que fazes aí?
Questionam-me as gargalhadas.
E como se soubesse,
sinto que vivo,
apenas observo.

Espero, não alguém que me leve, você
para acompanhar-me
num canto da sala,
num canto da vida.
sexta-feira, 2 de outubro de 2009 15 comentários

Afirmações retóricas


Não é por sentir pena, nem penar por sentir muito.
Não é que importe, nem que seja indiferente.
Não é que fazer do jeito errado seja tão errado que não possa estar certo, nem que fazer do jeito certo seja tão correto que não possa induzir ao erro.
Não é que não odeie, nem que odeie não odiar.
Não é que ouse ficar, nem que queira partir.
Não é que esqueça ou lembre, nem que faça questão de lembrar de não esquecer.
Não é a repressão de um desejo, nem o desejo da repressão.
Não é que mulheres façam amor e homens façam sexo, nem que alguns nada façam.
Não é lamentar o que nunca foi feito, nem fazer o que se pode lamentar.
Não é que a Bossa não seja Nova, que a música seja velha, nem que o samba seja diferente (o samba é o mesmo).
Não é que o sofá não seja mais atrativo, nem que queira usá-lo como antes.
Não é que não sinta a ausência da lua, nem que consiga encará-la como sempre (de alma aberta).
Não é que Cecília não seja mais a melhor companheira nas noites de insônia, nem que a poesia tenha me deixado entendível.
Não é uma questão de entendimento profundo, nem de desilusão corriqueira.
Não é que o antes seja bom, o depois pior, nem que se possa comparar.
Não é que as premissas sejam verdades ou mentiras, nem que a mentira seja a única verdade.
Não é que eu tivesse uma pergunta, nem que ela fosse retórica.
Não é, não é!
É do teu colo que sinto falta, e mais que o teu colo, é a própria falta de ti - SAUDADE - que quero esquecer.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 7 comentários

(In)compreendendo a mente


Tentar entender o comportamento humano é uma tarefa deveras complicada e eu desistiria na primeira fração de segundos se partisse para entender por que as pessoas complicam tanto a vida (e não estou falando de complicações saborosas das quais estou acostumada e que causam frio na barriga).

Freud, apesar de ter conseguido se estender pelo supra-sumo do psicológico, não completou sua obra. Talvez por ter morrido e não ter tido tempo suficiente, talvez por saber ser impossível explicar por que impulsos nervosos fisiologicamente idênticos geram respostas humanamente divergentes.

Eu poderia ser questionada sobre que autoridade teria para julgar o funcionamento da mente ao pensar, sentir e reagir, mas afirmo sem presságios que preencho e até ultrapasso os requisitos “psicocinéticos” exigidos a tais julgamentos à medida que, aos olhares alheios, sou um ser complicado, complicante e complicador.

Em meio a tantos dilemas complicativos o que eu gostaria de elucidar é simples e tempestivo: Até onde vai o sonho do outro? O desejo do outro? O direito do outro? Até que ponto alguém se anula em função do outro? Até onde o outro é melhor ou pior?

É impossível conceber como alguém que diz amar deixa o outro roxo de pancadas e não de amor. Como alguém que jura FIDELIDADE, AMOR e RESPEITO de LIVRE e ESPONTÂNEA VONTADE se julga autoridade para afirmar que “sexo por sexo” não é infidelidade ou que mandar “tomar não sei onde” e “dar não sei o quê” é o respeito que o outro imaginava compartilhar.

É praticamente surreal para a minha reles mente mortal entender como o amor é encarado como sinônimo, e não como antônimo, de anulação. Certa vez, vislumbrei-me ao descobrir que amar quer dizer dar a vida pelo outro (ou pelo menos dividi-la) e, até agora, não consegui descobrir quem resolveu permutar para: retirar a vida do outro em seu favor. A verdade é que me custa muito compreender por que alguém que resolve dividir casa, contas e filhos “esquece” de compartilhar anseios e aspirações.

“Cartas de euforia” (alforria) deveriam ser emitidas a todos os instantes e não limitadas as inquietações do século XIX. Parece que na “modernidade” os contratos pré-nupciais substituíram as correntes, as alianças as algemas e as humilhações verbais o tronco. O espantoso é notar que, ainda hoje (ou, principalmente hoje), o dinheiro é preponderante e que se submeter a agressões físicas, morais e psicológicas torna-se necessário quando o importante é manter a “integridade” familiar em prol dos filhos e de uma falsa vida social.

Por mais que eu tente e deseje, não vou ser a mente brilhante a decifrar o que a química e a biologia intitulam de reatividade ou norma de reação, já que esse mistério não é definido pela genética ou pelo meio, pois a forma de reagir aos estímulos externos depende de um fator que não se pode ver, só sentir, e que a ciência não conseguirá esmiuçar - a alma.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 3 comentários

(Des)fazendo destinos

Nunca pensei que fosse me sentir vazia. Pode alguém aos 22 anos se sentir vazio? Até admito, nesta etapa, senti-me incompleta, mas vazia? Vazia, não!

Sempre gostei de brincar com crianças. Fiz parte dos doutores da alegria. Dancei no Laureano - hospital de câncer - e arranquei boas gargalhadas quando caí e quase quebrei o pé (acho que a tragédia tornou-se tão corriqueira na vida daquelas crianças que era ela o único motivo capaz de desencadear todos os outros sentimentos: dor, sofrimento, fé, alegria). Fui até voluntária no Hospital Padre Zé - um hospital carente-, mas moro a dois quarteirões de um orfanato e, apesar de passar pela calçada todos os dias, nunca havia entrado lá.

Tantos problemas me tiravam o sono ao longo da semana que resolvi sair para tentar esfriar a cabeça até que, de repente, esbarrei em uma criança que saiu sabe Deus de onde e me derrubou. Chinguei o moleque desesperadamente e ele refutou dizendo: “- Desculpe moça, não tive a intenção de esbarrar na Senhora” Que falta de educação a minha! Senti-me muda, ou melhor, preferi ficar muda, já que nada que eu proferisse iria mudar os meus atos. Envergonhada, entrei com o menino no orfanato - uma casa velha que reformaram para colocar as crianças que viviam jogadas na rua, as "coisas" - e fiquei a observar de um banquinho velho, muda, estática (naquele momento, só os meus pensamentos eram capazes de movimentos bruscos).

Eram tantas as "coisas" (crianças), talvez nomes sem importância, apenas números importantes, que cheguei a ficar tonta. E então descobri que aquele amontoado de números que o jornal noticiava, na verdade, era um amontoado de sentimentos, de personalidades, por ora sem brilho, mas personalidades. Introspectivos, extravagantes, agitados, tranqüilos, falantes, tímidos, sorridentes. Havia criança para todos os gostos, mas estavam velhas e ninguém leva para casa mercadoria velha, leva?

Quando dei por mim, estava correndo com os pés descalços, os cabelos soltos e os meus eternos 7 anos. Brinquei de tudo: "amarelinha", "casinha", "roube a bandeira", "escolinha" e até "futebol". Fui a parceira, a amiga, a tia, a irmã, a mãe. E por alguns instantes, fui o tudo bem no meio do nada e nem havia me dado conta disso.


A hora do jantar chegou e depois vieram as histórias, era hora de ir. Quando já estava no portão, “mulambo”, ou melhor, João Pedro, saiu correndo porta a fora e perguntou:
- Onde você vai?
- Estou indo embora, preciso ir para casa, respondi.
- Por quê? Pensei que você fosse ficar com a gente, indagou-me com ar de tristeza.
Sorri levemente diante da inocência dos 6 anos de João Pedro e respondi:
- Preciso ir para casa, meus pais devem estar preocupados e eu não posso ficar aqui para sempre, mas voltarei outro dia para brincar.
E ele completou:
- Pensei que você tivesse vindo para ficar, para ser minha mãe, a mãe que peço a Deus todos os dias.
Eu, na minha não tão inocência, ainda argumentei:
- Desculpe pequeno, mas não posso ser sua mãe. Não posso ser a mãe de ninguém, pelo menos, por enquanto. Sou apenas uma estudante sustentada pelos pais. Não trabalho, não sou casada e tenho pouco mais de vinte anos. É, tecnicamente, impossível ser mãe, para mim. Mas posso ser sua amiga, certo?

Ele não disse mais nada, não precisava. As lágrimas que verteram dos seus pequenos olhos, agora sem brilho, revelavam mais um sonho desfeito, destruído. Naquele momento, descobri que não nos tornamos velhos e morremos quando os anos passam, e sim quando somos mutilados e vemos os nossos sonhos dissolvidos na indiferença humana.

Saí de lá arrasada, segurando o choro. Não tive coragem de olhar minha mãe nos olhos. Por um longo tempo, olhei tudo ao meu redor e repudiei. Repudiei a casa, a comida, os pais e até a mim. Joguei-me na cama e foi só, só frustração, desafeto e sentimento de culpa, vazio. Descobri que eu era vazia e que tudo o que eu fazia era nada. João Pedro e todas aquelas crianças estavam ali, ao alcance dos meus olhos, e eu não podia fazer nada, inútil.

Prometi a mim que voltaria lá sempre que fosse possível. Acredito que o sentimento de culpa não me deixaria descumprir a promessa. E eu voltei. Vi muitas crianças chegarem, poucas partirem e passei a cuidar da saúde delas porque isso me fazia bem.

João Pedro deixou o orfanato aos 14 anos e eu adoraria dizer que ele encontrou um lar, estudou, é amado e feliz, mas não tenho notícias suas e não sei dizer se ele entrou para o mundo das drogas e do crime, ou das universidades. Não sei, sequer, se ele está vivo. Eu? Eu não podia fazer nada.

Anos e anos passados, alguns cabelos brancos, médica de sucesso, grande prestígio social, 3 filhos adotados dos quatro que tenho, 8 netos, mas mesmo assim, ser humano falido. Porque naquele dia, ao matar os sonhos de João Pedro, tornei-me órfã do mundo, eternamente vazia.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008 17 comentários

Natal em preto e branco



Campina Grande, 11 de dezembro de 2008.

Querido Noel


Faz algum tempo que não o escrevo, para ser mais específica, pouco mais de 12 anos, e tenho andado meio sem jeito com as palavras e sensações. A verdade é que minha vida mudou substancialmente e estou morrendo de medo que você não reconheça a minha letra e nem se lembre mais onde eu moro.

Pensei em dar algumas desculpas para o meu sumiço intencional e, talvez, dizer que à medida que fui crescendo ganhei obrigações e responsabilidades que acabaram por usurpar o tempo destinado aos bilhetinhos, mas a verdade é que, com o passar do tempo, a inocência de outrora se perdeu por esperas (in)cansáveis de expectativas irrealizáveis e eu acreditei, quando me disseram, que você era mais uma ilusão, invenção utópica.

Lembrei-me de quão grandes eram a minha ansiedade e a minha preocupação (pensamentos inúteis, mas que faziam a diferença dos Natais). Nunca soube, ao certo, que dia deveria esperá-lo, 24 ou 25? Como você saberia onde me encontrar? (eu sei que as cartas continham o remetente, mas devia ser muito complexo chegar ao destino sem a ajuda de um GPS e você ainda poderia perder o discreto pedaço de papel onde informava que a minha casa é a que fica na calçada do posto de gasolina). Além de tudo, não possuíamos chaminé, de que forma você entraria?

Sinto saudade da época em que as únicas condições impostas, em troca dos presentes, eram: ser uma boa menina, fazer as tarefas da escola e escovar os dentes. Como era bom quando os sonhos eram fáceis de encontrar em qualquer departamento de brinquedos e só dependiam de um “eu quero”. Como me faziam feliz suas visitinhas rápidas no calar da noite, mesmo quando o presente que trazia estava trocado. Nunca reclamei dos “equívocos” porque sabia que a minha boneca não falavas as 10 frases, provavelmente, por causa dos altos preços decorrentes da inflação e se a bicicleta chegou com um mês de atraso (aquela que tinha uma cestinha na frente) só pode ter sido culpa do caos aéreo ocasionado pelo sucateamento das renas.

Quando dei pela sua morte, não fiquei triste, sentia-me madura e evoluída (uma mocinha, como diziam), mas o natal perdeu o brilho e o encanto de antes. Os sonhos sonhados não sabem se fazerem reais e os presentes que eu desejo não estão disponíveis em prateleiras.

Hoje, enquanto recolho as bonecas já quebradas, os ursos amarrotados e os sonhos desbotados, escrevo para desabafar as palavras que me enchem a boca e mantém meus olhos em constante transbordamento.

Se você ainda estivesse aí e pudesse ler esta carta, pediria que regressasse e nunca mais me deixasse abandoná-lo para que eu pudesse voltar a acreditar que você vai entrar pela janela de mansinho e vai deixar a tão preciosa aprovação em uma das mãos e uma caixinha de band-aid na outra enquanto, exausta de tentar e de esperar, durmo serenamente.


 
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