sexta-feira, 17 de junho de 2011 6 comentários

A visita


Que sensação estranha
você aparecer assim do nada
com essa cara de barganha
e a felicidade estampada.

Que sensação estranha
refazer o juramento
e se perder nessa façanha
diante do antigo encantamento.

Que sensação estranha
a gente dançando engraçado
não há mar, nem há montanha
sob nós, só o passado.

A sensação estranha?
Era um sonho, que pena!
terça-feira, 5 de abril de 2011 21 comentários

Descaso

Me livrei dos nós atados
desse amor mal curado
desse mau-humor danado
desses versos de desilusão.

Entreguei os pontos pro fracasso.
Por descuido ou por descaso
se desfez tanta paixão?!

Esqueça, o velho encanto está desfeito
faça as malas do desejo
e leva embora esse meu peito
que não soube sonhar sem sentir dor.

Se pisei na bola me perdoa,
mas embora ainda me doa
dessa tua vida à toa
já não quero mais gozar.

Guarda teus delírios e teus fatos
teu sorriso, teu gingado,
para quem queira gostar.

Leva tua pochete ultrapassada
tua barbicha estrapiada
e essa vida embriagada
que eu cansei de suportar.

Guarda teus delírios e teus fatos
teu sorriso, teu gingado,
para quem queira gostar.
domingo, 27 de março de 2011 14 comentários

Febril

Os lugares antigos senti-os no cheiro da memória.
O passo manso tem o gosto suave que revigora
os atrevimentos dessa minha febre habitual
e o suor frio dos dias banais.

Confundi todas as histórias.
Meus desejos se perderam em confissões
por palavras nunca antes ditas
e as minhas frases feitas perderam o sentido.

Parei de massacrar as cigarras
Meu próprio canto me incomoda e me faz implorar
Não importa se aqui não é Babylon
Minha pele anseia o arrepio de tuas fanfarras.

É que hoje eu queria um abraço
que me pegasse num sopapo
e me sentisse sorrir como quem chora de saudade.

Se voltei foi pra sentir [de novo] o meu porto seguro trepidar
Cansei da sensatez de ser só
Voltei ao meu delírio de poder ser em você mais uma vez.

domingo, 28 de novembro de 2010 16 comentários

Até parece...



Até parece que se ama por impulso,
que se tem paixão por conveniência,
e que se sonha sem tirar os pés do chão.

Até parece que a gente não sabe onde tudo vai dar,
que não se engana de propósito,
e que nao quer se enganar.

Até parece que a gente nunca tinha sonhado,
que nunca tinha voado,
e que nunca tinha caído.

Até parece que não ia doer,
que a gente não ia sofrer,
e que ninguém ia perceber.

Até parece que a gente não ia seguir em frente,
que não ia olhar pra trás,
e que não ia se sentir de repente.

Até parece que meus versos não são mudos,
que se eu gritar você escuta,
e que o contrário tornaria algo diferente.

Até parece que, um dia, eu deixei de ser tua,
que hoje eu conseguiria ser de outro,
e que isso seria, ao menos, suportável.

Até parece que o tempo ia passar,
que a saudade ia acabar,
e que tudo ia ter um fim.

Ai, ai, .... até parece!

sábado, 13 de novembro de 2010 16 comentários

Quando te perdi, meu amigo...




Com o passar do tempo
fui substituindo, aos poucos, a tua presença.
Repousei meus beijos em outros lábios
e entreguei sorrisos e sentidos a novos abraços.

Quando te perdi, meu amigo,
preenchi toda a tua ausência
e aprendi a conviver com aquela antiga saudade,
mas a paz que a tua voz me trazia não consegui.
^^
quinta-feira, 23 de setembro de 2010 14 comentários

Ontem à noite



A lua, envergonhada, se escondeu ao ver o moço simples que cantava, com a ponta dos dedos, versos singelos de emoção revisitada.

Se eram as cordas a imitar as batidas do coração ou o contrário, pouco importa. Na madrugada morna, era possível encontrar qualquer sensação solta ou perdida entre papéis e pensamentos.

O tempo continua usando os mesmos truques. E, às vezes, parece que me deixo seduzir de propósito. Só para me sentir iludida. Só para me fazer pensar que não pensar me tornará ingênua.


Quero meu ouro, mesmo que seja de tolo. Encontrar o velho, estranhar o que é novo e fazer do inusitado um velho conhecido. É que gosto de rimas estranhas e sei que meus afetos são complexos, contudo, se necessário, posso desenhar para quem for disléxico.

Não quero ter a alma doída nem as emoções calejadas. Já não me importo em parecer piegas. Quero de volta a pretensão maliciosa do olhar desconfiado e o desejo de sentir tudo de uma vez sem me preocupar se vai sobrar um pouco para mais tarde. Quero poder acreditar que “os teus olhos têm a cor dos meus sonhos”.

Ontem à noite, a lua veio ouvir que não existiriam mais aquelas noites. A poesia aquietou-se, a música parou, e fomos embora guardando um pouco para depois.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010 6 comentários

Samba nas entrelinhas

"Pra onde vão desejos?
palavras sem razão?
Pra onde vão palavras?
Versos ao vento vão".
(Zeca Baleiro)



Alguém já se sentiu uma aventura? Não aquelas do tipo psicodélicas que levam a loucura e provocam delírios seguidos de um suor intenso. Falo de brincar de sentir e sentir muito depois de brincar.
É interessante pensar sobre isso por que acredito que ninguém se propõe a algo que o dicionário deveria definir como uma relação fugaz que promove divertimento e prazer momentâneo, porém sem a menor intenção de acontecer.
Quem foi o mais intenso: o que fez firulas e declarações aos sete cantos ou o que, mesmo sem entender porque, se manteve fiel ao que sentia? E quem é capaz de comparar?
Vale mais penar por perder os sentidos ou sentí-los com pena? Pesar, ponderar, delirar? ... Já não importa quantas doses de tequila. O nome escrito no vidro do carro parecia sussurrar algo, mas nada dizia e já deve ter se apagado. A espera por um telefonema - aquela noite - foi vã. As mensagens? Adereços coloridos. A empolgação era empolgada demais e qualquer redundância anda longe de ser exagero.
O grande prazer dos sentidos é uma volúpia (im)perfeita e (in)completa por (in)compreensão das entrelinhas. Mas quem se detém a ler nestas tais entrelinhas?
Entre tantas intenções, ou nenhuma, fica a vaga sensação de haver vivido algo que não sabe como ser lembrado. E tropeçando por entre textos e melodias, resta mais uma pergunta: quem vai cantar nosso samba?
quarta-feira, 28 de julho de 2010 14 comentários

Apalpar


"Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio"

(Metade - Oswaldo Montenegro)






Decidir é complicado. Nunca fui a melhor nem a pior aluna da turma, mas sempre soube que queria ser médica, mesmo tendo feito meu primeiro vestibular para enfermagem. Passei e cursei dois anos, até o dia que me perguntei o que eu tinha feito do meu sonho. Eu estava feliz, porém incompleta. Queria mais, chorei por mais e decidi lutar por muito mais.

Não esperava que fosse fácil, mas não tinha noção das minhas limitações. Poucos acertos e incontáveis erros me levaram a quatro anos de tentativas frustradas. Culpar a ansiedade, o estado emocional ou qualquer adversidade que tenha acontecido durante esse período pode até ser cômodo, um bom argumento, todavia nem de longe justifica minhas falhas. E falhas são erros, defeitos que carecem de correção, não de explicação.

Minha caminhada é repleta de tombos e diante do último quase sucumbi. Estudar tinha perdido a graça, passou a ser obrigação e não um prazer. A alegria de dizer que queria medicina deu lugar ao sorriso amarelo de quem já não sabia mais.

Não foi fácil olhar para as pessoas que me amam e dizer que não consegui. A nostalgia deixada pela sensação de impotência não me permitia respirar e tudo o que consegui foi chover de tristeza. Quis fugir para não ter de encarar o fracasso, mas fiquei e, tentando apalpar o que anseio, recomecei.

Hoje, tenho voltado a sorrir e a me divertir coma pilha de livros e de papéis ao meu redor sem deixar de sorrir para o resto do mundo, pois aprendi que a felicidade não está em um só momento, ela acontece um pouquinho todos os dias.

Onde está a linha tênue entre o sonho e a ilusão? Eu não sei, mas sei que se ainda não deu certo é porque tudo o que fiz não foi tudo o que posso. Cada batalha me fortalece para a próxima e desistir seria aceitar que não sou capaz, e eu sei que posso ir além.

 
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