sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Afirmações retóricas
segunda-feira, 19 de janeiro de 2009
(In)compreendendo a mente
Tentar entender o comportamento humano é uma tarefa deveras complicada e eu desistiria na primeira fração de segundos se partisse para entender por que as pessoas complicam tanto a vida (e não estou falando de complicações saborosas das quais estou acostumada e que causam frio na barriga).
Freud, apesar de ter conseguido se estender pelo supra-sumo do psicológico, não completou sua obra. Talvez por ter morrido e não ter tido tempo suficiente, talvez por saber ser impossível explicar por que impulsos nervosos fisiologicamente idênticos geram respostas humanamente divergentes.
Eu poderia ser questionada sobre que autoridade teria para julgar o funcionamento da mente ao pensar, sentir e reagir, mas afirmo sem presságios que preencho e até ultrapasso os requisitos “psicocinéticos” exigidos a tais julgamentos à medida que, aos olhares alheios, sou um ser complicado, complicante e complicador.
Em meio a tantos dilemas complicativos o que eu gostaria de elucidar é simples e tempestivo: Até onde vai o sonho do outro? O desejo do outro? O direito do outro? Até que ponto alguém se anula em função do outro? Até onde o outro é melhor ou pior?
É impossível conceber como alguém que diz amar deixa o outro roxo de pancadas e não de amor. Como alguém que jura FIDELIDADE, AMOR e RESPEITO de LIVRE e ESPONTÂNEA VONTADE se julga autoridade para afirmar que “sexo por sexo” não é infidelidade ou que mandar “tomar não sei onde” e “dar não sei o quê” é o respeito que o outro imaginava compartilhar.
É praticamente surreal para a minha reles mente mortal entender como o amor é encarado como sinônimo, e não como antônimo, de anulação. Certa vez, vislumbrei-me ao descobrir que amar quer dizer dar a vida pelo outro (ou pelo menos dividi-la) e, até agora, não consegui descobrir quem resolveu permutar para: retirar a vida do outro em seu favor. A verdade é que me custa muito compreender por que alguém que resolve dividir casa, contas e filhos “esquece” de compartilhar anseios e aspirações.
“Cartas de euforia” (alforria) deveriam ser emitidas a todos os instantes e não limitadas as inquietações do século XIX. Parece que na “modernidade” os contratos pré-nupciais substituíram as correntes, as alianças as algemas e as humilhações verbais o tronco. O espantoso é notar que, ainda hoje (ou, principalmente hoje), o dinheiro é preponderante e que se submeter a agressões físicas, morais e psicológicas torna-se necessário quando o importante é manter a “integridade” familiar em prol dos filhos e de uma falsa vida social.
Por mais que eu tente e deseje, não vou ser a mente brilhante a decifrar o que a química e a biologia intitulam de reatividade ou norma de reação, já que esse mistério não é definido pela genética ou pelo meio, pois a forma de reagir aos estímulos externos depende de um fator que não se pode ver, só sentir, e que a ciência não conseguirá esmiuçar - a alma.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
(Des)fazendo destinos
Sempre gostei de brincar com crianças. Fiz parte dos doutores da alegria. Dancei no Laureano - hospital de câncer - e arranquei boas gargalhadas quando caí e quase quebrei o pé (acho que a tragédia tornou-se tão corriqueira na vida daquelas crianças que era ela o único motivo capaz de desencadear todos os outros sentimentos: dor, sofrimento, fé, alegria). Fui até voluntária no Hospital Padre Zé - um hospital carente-, mas moro a dois quarteirões de um orfanato e, apesar de passar pela calçada todos os dias, nunca havia entrado lá.
Tantos problemas me tiravam o sono ao longo da semana que resolvi sair para tentar esfriar a cabeça até que, de repente, esbarrei em uma criança que saiu sabe Deus de onde e me derrubou. Chinguei o moleque desesperadamente e ele refutou dizendo: “- Desculpe moça, não tive a intenção de esbarrar na Senhora” Que falta de educação a minha! Senti-me muda, ou melhor, preferi ficar muda, já que nada que eu proferisse iria mudar os meus atos. Envergonhada, entrei com o menino no orfanato - uma casa velha que reformaram para colocar as crianças que viviam jogadas na rua, as "coisas" - e fiquei a observar de um banquinho velho, muda, estática (naquele momento, só os meus pensamentos eram capazes de movimentos bruscos).
Eram tantas as "coisas" (crianças), talvez nomes sem importância, apenas números importantes, que cheguei a ficar tonta. E então descobri que aquele amontoado de números que o jornal noticiava, na verdade, era um amontoado de sentimentos, de personalidades, por ora sem brilho, mas personalidades. Introspectivos, extravagantes, agitados, tranqüilos, falantes, tímidos, sorridentes. Havia criança para todos os gostos, mas estavam velhas e ninguém leva para casa mercadoria velha, leva?
A hora do jantar chegou e depois vieram as histórias, era hora de ir. Quando já estava no portão, “mulambo”, ou melhor, João Pedro, saiu correndo porta a fora e perguntou:
- Onde você vai?
- Estou indo embora, preciso ir para casa, respondi.
- Por quê? Pensei que você fosse ficar com a gente, indagou-me com ar de tristeza.
Sorri levemente diante da inocência dos 6 anos de João Pedro e respondi:
- Preciso ir para casa, meus pais devem estar preocupados e eu não posso ficar aqui para sempre, mas voltarei outro dia para brincar.
E ele completou:
- Pensei que você tivesse vindo para ficar, para ser minha mãe, a mãe que peço a Deus todos os dias.
Eu, na minha não tão inocência, ainda argumentei:
- Desculpe pequeno, mas não posso ser sua mãe. Não posso ser a mãe de ninguém, pelo menos, por enquanto. Sou apenas uma estudante sustentada pelos pais. Não trabalho, não sou casada e tenho pouco mais de vinte anos. É, tecnicamente, impossível ser mãe, para mim. Mas posso ser sua amiga, certo?
Prometi a mim que voltaria lá sempre que fosse possível. Acredito que o sentimento de culpa não me deixaria descumprir a promessa. E eu voltei. Vi muitas crianças chegarem, poucas partirem e passei a cuidar da saúde delas porque isso me fazia bem.
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
Natal em preto e branco

Campina Grande, 11 de dezembro de 2008.
Querido Noel
Faz algum tempo que não o escrevo, para ser mais específica, pouco mais de 12 anos, e tenho andado meio sem jeito com as palavras e sensações. A verdade é que minha vida mudou substancialmente e estou morrendo de medo que você não reconheça a minha letra e nem se lembre mais onde eu moro.
Pensei em dar algumas desculpas para o meu sumiço intencional e, talvez, dizer que à medida que fui crescendo ganhei obrigações e responsabilidades que acabaram por usurpar o tempo destinado aos bilhetinhos, mas a verdade é que, com o passar do tempo, a inocência de outrora se perdeu por esperas (in)cansáveis de expectativas irrealizáveis e eu acreditei, quando me disseram, que você era mais uma ilusão, invenção utópica.
Lembrei-me de quão grandes eram a minha ansiedade e a minha preocupação (pensamentos inúteis, mas que faziam a diferença dos Natais). Nunca soube, ao certo, que dia deveria esperá-lo, 24 ou 25? Como você saberia onde me encontrar? (eu sei que as cartas continham o remetente, mas devia ser muito complexo chegar ao destino sem a ajuda de um GPS e você ainda poderia perder o discreto pedaço de papel onde informava que a minha casa é a que fica na calçada do posto de gasolina). Além de tudo, não possuíamos chaminé, de que forma você entraria?
Sinto saudade da época em que as únicas condições impostas, em troca dos presentes, eram: ser uma boa menina, fazer as tarefas da escola e escovar os dentes. Como era bom quando os sonhos eram fáceis de encontrar em qualquer departamento de brinquedos e só dependiam de um “eu quero”. Como me faziam feliz suas visitinhas rápidas no calar da noite, mesmo quando o presente que trazia estava trocado. Nunca reclamei dos “equívocos” porque sabia que a minha boneca não falavas as 10 frases, provavelmente, por causa dos altos preços decorrentes da inflação e se a bicicleta chegou com um mês de atraso (aquela que tinha uma cestinha na frente) só pode ter sido culpa do caos aéreo ocasionado pelo sucateamento das renas.
Quando dei pela sua morte, não fiquei triste, sentia-me madura e evoluída (uma mocinha, como diziam), mas o natal perdeu o brilho e o encanto de antes. Os sonhos sonhados não sabem se fazerem reais e os presentes que eu desejo não estão disponíveis em prateleiras.
Hoje, enquanto recolho as bonecas já quebradas, os ursos amarrotados e os sonhos desbotados, escrevo para desabafar as palavras que me enchem a boca e mantém meus olhos em constante transbordamento.
Se você ainda estivesse aí e pudesse ler esta carta, pediria que regressasse e nunca mais me deixasse abandoná-lo para que eu pudesse voltar a acreditar que você vai entrar pela janela de mansinho e vai deixar a tão preciosa aprovação em uma das mãos e uma caixinha de band-aid na outra enquanto, exausta de tentar e de esperar, durmo serenamente.
segunda-feira, 24 de novembro de 2008
Sequência
Começo e fim são sempre as partes mais complicadas nesta seqüência porque estão repletos de sentimentos que me amedrontam: medo, insegurança, dor, saudade.
Bom mesmo é o meio. É no meio do bolo que está o mais saboroso, o recheio (que no meu caso só poderia ser de chocolate). Ao leite, meio amargo ou com flocos de emoção.
Mesmo que eu quisesse, não conseguiria encontrar palavras para descrever o meio porque a gente prova (vive, acontece) e só consegue dizer: “ Hum ...”
Sim, mas onde está a emoção? Está bem guardada nas minhas lembranças e quem quiser que imagine, sinta-se a vontade. Eu é que não vou contar. Porque a emoção estava (está) em viver cada momento e sentimento e depois dizer que faria tudo outra vez, mesmo sabendo que, às vezes, fins não têm começo e começos podem não ter fim.
O fim
Extremamente por acaso, mas também, ninguém sai de casa dizendo: “Hoje, vou me apaixonar”, nem mesmo uma louca como eu. Mas foi assim, um acaso intencionado, conversas e mais conversas, trocas de olhar, algumas indiretas, muitas diretas e três meses de telefonemas. Muitas limitações, pré-conceitos, caipirinhas e medo. Sonhos então, melhor nem comentar.
O fim do começo? A falta de luz, um garçom metido, uma vela, um abajur e uma explosão (o beijo)!
O começo
[...] E assim, nos olhamos e partimos. E eu pensei que quando esse dia chegasse iria espernear, mas não. Não disse nada. Não fiz nada. Não movi sequer os olhos, apenas andei. Andei por querer estar longe, mesmo sabendo que, por enquanto, por mais que eu corra, você ainda vai estar em mim.
É o começo do fim e talvez não seja o tão sonhado final feliz, mas também não é triste, é apenas o fim. E eu não desisti de você como se largasse um brinquedo que já perdeu a graça. Deixei-o ir porque o amava, mas já não o tinha mais.

