segunda-feira, 19 de janeiro de 2009 7 comentários

(In)compreendendo a mente


Tentar entender o comportamento humano é uma tarefa deveras complicada e eu desistiria na primeira fração de segundos se partisse para entender por que as pessoas complicam tanto a vida (e não estou falando de complicações saborosas das quais estou acostumada e que causam frio na barriga).

Freud, apesar de ter conseguido se estender pelo supra-sumo do psicológico, não completou sua obra. Talvez por ter morrido e não ter tido tempo suficiente, talvez por saber ser impossível explicar por que impulsos nervosos fisiologicamente idênticos geram respostas humanamente divergentes.

Eu poderia ser questionada sobre que autoridade teria para julgar o funcionamento da mente ao pensar, sentir e reagir, mas afirmo sem presságios que preencho e até ultrapasso os requisitos “psicocinéticos” exigidos a tais julgamentos à medida que, aos olhares alheios, sou um ser complicado, complicante e complicador.

Em meio a tantos dilemas complicativos o que eu gostaria de elucidar é simples e tempestivo: Até onde vai o sonho do outro? O desejo do outro? O direito do outro? Até que ponto alguém se anula em função do outro? Até onde o outro é melhor ou pior?

É impossível conceber como alguém que diz amar deixa o outro roxo de pancadas e não de amor. Como alguém que jura FIDELIDADE, AMOR e RESPEITO de LIVRE e ESPONTÂNEA VONTADE se julga autoridade para afirmar que “sexo por sexo” não é infidelidade ou que mandar “tomar não sei onde” e “dar não sei o quê” é o respeito que o outro imaginava compartilhar.

É praticamente surreal para a minha reles mente mortal entender como o amor é encarado como sinônimo, e não como antônimo, de anulação. Certa vez, vislumbrei-me ao descobrir que amar quer dizer dar a vida pelo outro (ou pelo menos dividi-la) e, até agora, não consegui descobrir quem resolveu permutar para: retirar a vida do outro em seu favor. A verdade é que me custa muito compreender por que alguém que resolve dividir casa, contas e filhos “esquece” de compartilhar anseios e aspirações.

“Cartas de euforia” (alforria) deveriam ser emitidas a todos os instantes e não limitadas as inquietações do século XIX. Parece que na “modernidade” os contratos pré-nupciais substituíram as correntes, as alianças as algemas e as humilhações verbais o tronco. O espantoso é notar que, ainda hoje (ou, principalmente hoje), o dinheiro é preponderante e que se submeter a agressões físicas, morais e psicológicas torna-se necessário quando o importante é manter a “integridade” familiar em prol dos filhos e de uma falsa vida social.

Por mais que eu tente e deseje, não vou ser a mente brilhante a decifrar o que a química e a biologia intitulam de reatividade ou norma de reação, já que esse mistério não é definido pela genética ou pelo meio, pois a forma de reagir aos estímulos externos depende de um fator que não se pode ver, só sentir, e que a ciência não conseguirá esmiuçar - a alma.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009 4 comentários

(Des)fazendo destinos

Nunca pensei que fosse me sentir vazia. Pode alguém aos 22 anos se sentir vazio? Até admito, nesta etapa, senti-me incompleta, mas vazia? Vazia, não!

Sempre gostei de brincar com crianças. Fiz parte dos doutores da alegria. Dancei no Laureano - hospital de câncer - e arranquei boas gargalhadas quando caí e quase quebrei o pé (acho que a tragédia tornou-se tão corriqueira na vida daquelas crianças que era ela o único motivo capaz de desencadear todos os outros sentimentos: dor, sofrimento, fé, alegria). Fui até voluntária no Hospital Padre Zé - um hospital carente-, mas moro a dois quarteirões de um orfanato e, apesar de passar pela calçada todos os dias, nunca havia entrado lá.

Tantos problemas me tiravam o sono ao longo da semana que resolvi sair para tentar esfriar a cabeça até que, de repente, esbarrei em uma criança que saiu sabe Deus de onde e me derrubou. Chinguei o moleque desesperadamente e ele refutou dizendo: “- Desculpe moça, não tive a intenção de esbarrar na Senhora” Que falta de educação a minha! Senti-me muda, ou melhor, preferi ficar muda, já que nada que eu proferisse iria mudar os meus atos. Envergonhada, entrei com o menino no orfanato - uma casa velha que reformaram para colocar as crianças que viviam jogadas na rua, as "coisas" - e fiquei a observar de um banquinho velho, muda, estática (naquele momento, só os meus pensamentos eram capazes de movimentos bruscos).

Eram tantas as "coisas" (crianças), talvez nomes sem importância, apenas números importantes, que cheguei a ficar tonta. E então descobri que aquele amontoado de números que o jornal noticiava, na verdade, era um amontoado de sentimentos, de personalidades, por ora sem brilho, mas personalidades. Introspectivos, extravagantes, agitados, tranqüilos, falantes, tímidos, sorridentes. Havia criança para todos os gostos, mas estavam velhas e ninguém leva para casa mercadoria velha, leva?

Quando dei por mim, estava correndo com os pés descalços, os cabelos soltos e os meus eternos 7 anos. Brinquei de tudo: "amarelinha", "casinha", "roube a bandeira", "escolinha" e até "futebol". Fui a parceira, a amiga, a tia, a irmã, a mãe. E por alguns instantes, fui o tudo bem no meio do nada e nem havia me dado conta disso.


A hora do jantar chegou e depois vieram as histórias, era hora de ir. Quando já estava no portão, “mulambo”, ou melhor, João Pedro, saiu correndo porta a fora e perguntou:
- Onde você vai?
- Estou indo embora, preciso ir para casa, respondi.
- Por quê? Pensei que você fosse ficar com a gente, indagou-me com ar de tristeza.
Sorri levemente diante da inocência dos 6 anos de João Pedro e respondi:
- Preciso ir para casa, meus pais devem estar preocupados e eu não posso ficar aqui para sempre, mas voltarei outro dia para brincar.
E ele completou:
- Pensei que você tivesse vindo para ficar, para ser minha mãe, a mãe que peço a Deus todos os dias.
Eu, na minha não tão inocência, ainda argumentei:
- Desculpe pequeno, mas não posso ser sua mãe. Não posso ser a mãe de ninguém, pelo menos, por enquanto. Sou apenas uma estudante sustentada pelos pais. Não trabalho, não sou casada e tenho pouco mais de vinte anos. É, tecnicamente, impossível ser mãe, para mim. Mas posso ser sua amiga, certo?

Ele não disse mais nada, não precisava. As lágrimas que verteram dos seus pequenos olhos, agora sem brilho, revelavam mais um sonho desfeito, destruído. Naquele momento, descobri que não nos tornamos velhos e morremos quando os anos passam, e sim quando somos mutilados e vemos os nossos sonhos dissolvidos na indiferença humana.

Saí de lá arrasada, segurando o choro. Não tive coragem de olhar minha mãe nos olhos. Por um longo tempo, olhei tudo ao meu redor e repudiei. Repudiei a casa, a comida, os pais e até a mim. Joguei-me na cama e foi só, só frustração, desafeto e sentimento de culpa, vazio. Descobri que eu era vazia e que tudo o que eu fazia era nada. João Pedro e todas aquelas crianças estavam ali, ao alcance dos meus olhos, e eu não podia fazer nada, inútil.

Prometi a mim que voltaria lá sempre que fosse possível. Acredito que o sentimento de culpa não me deixaria descumprir a promessa. E eu voltei. Vi muitas crianças chegarem, poucas partirem e passei a cuidar da saúde delas porque isso me fazia bem.

João Pedro deixou o orfanato aos 14 anos e eu adoraria dizer que ele encontrou um lar, estudou, é amado e feliz, mas não tenho notícias suas e não sei dizer se ele entrou para o mundo das drogas e do crime, ou das universidades. Não sei, sequer, se ele está vivo. Eu? Eu não podia fazer nada.

Anos e anos passados, alguns cabelos brancos, médica de sucesso, grande prestígio social, 3 filhos adotados dos quatro que tenho, 8 netos, mas mesmo assim, ser humano falido. Porque naquele dia, ao matar os sonhos de João Pedro, tornei-me órfã do mundo, eternamente vazia.

 
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