terça-feira, 6 de janeiro de 2009

(Des)fazendo destinos

Nunca pensei que fosse me sentir vazia. Pode alguém aos 22 anos se sentir vazio? Até admito, nesta etapa, senti-me incompleta, mas vazia? Vazia, não!

Sempre gostei de brincar com crianças. Fiz parte dos doutores da alegria. Dancei no Laureano - hospital de câncer - e arranquei boas gargalhadas quando caí e quase quebrei o pé (acho que a tragédia tornou-se tão corriqueira na vida daquelas crianças que era ela o único motivo capaz de desencadear todos os outros sentimentos: dor, sofrimento, fé, alegria). Fui até voluntária no Hospital Padre Zé - um hospital carente-, mas moro a dois quarteirões de um orfanato e, apesar de passar pela calçada todos os dias, nunca havia entrado lá.

Tantos problemas me tiravam o sono ao longo da semana que resolvi sair para tentar esfriar a cabeça até que, de repente, esbarrei em uma criança que saiu sabe Deus de onde e me derrubou. Chinguei o moleque desesperadamente e ele refutou dizendo: “- Desculpe moça, não tive a intenção de esbarrar na Senhora” Que falta de educação a minha! Senti-me muda, ou melhor, preferi ficar muda, já que nada que eu proferisse iria mudar os meus atos. Envergonhada, entrei com o menino no orfanato - uma casa velha que reformaram para colocar as crianças que viviam jogadas na rua, as "coisas" - e fiquei a observar de um banquinho velho, muda, estática (naquele momento, só os meus pensamentos eram capazes de movimentos bruscos).

Eram tantas as "coisas" (crianças), talvez nomes sem importância, apenas números importantes, que cheguei a ficar tonta. E então descobri que aquele amontoado de números que o jornal noticiava, na verdade, era um amontoado de sentimentos, de personalidades, por ora sem brilho, mas personalidades. Introspectivos, extravagantes, agitados, tranqüilos, falantes, tímidos, sorridentes. Havia criança para todos os gostos, mas estavam velhas e ninguém leva para casa mercadoria velha, leva?

Quando dei por mim, estava correndo com os pés descalços, os cabelos soltos e os meus eternos 7 anos. Brinquei de tudo: "amarelinha", "casinha", "roube a bandeira", "escolinha" e até "futebol". Fui a parceira, a amiga, a tia, a irmã, a mãe. E por alguns instantes, fui o tudo bem no meio do nada e nem havia me dado conta disso.


A hora do jantar chegou e depois vieram as histórias, era hora de ir. Quando já estava no portão, “mulambo”, ou melhor, João Pedro, saiu correndo porta a fora e perguntou:
- Onde você vai?
- Estou indo embora, preciso ir para casa, respondi.
- Por quê? Pensei que você fosse ficar com a gente, indagou-me com ar de tristeza.
Sorri levemente diante da inocência dos 6 anos de João Pedro e respondi:
- Preciso ir para casa, meus pais devem estar preocupados e eu não posso ficar aqui para sempre, mas voltarei outro dia para brincar.
E ele completou:
- Pensei que você tivesse vindo para ficar, para ser minha mãe, a mãe que peço a Deus todos os dias.
Eu, na minha não tão inocência, ainda argumentei:
- Desculpe pequeno, mas não posso ser sua mãe. Não posso ser a mãe de ninguém, pelo menos, por enquanto. Sou apenas uma estudante sustentada pelos pais. Não trabalho, não sou casada e tenho pouco mais de vinte anos. É, tecnicamente, impossível ser mãe, para mim. Mas posso ser sua amiga, certo?

Ele não disse mais nada, não precisava. As lágrimas que verteram dos seus pequenos olhos, agora sem brilho, revelavam mais um sonho desfeito, destruído. Naquele momento, descobri que não nos tornamos velhos e morremos quando os anos passam, e sim quando somos mutilados e vemos os nossos sonhos dissolvidos na indiferença humana.

Saí de lá arrasada, segurando o choro. Não tive coragem de olhar minha mãe nos olhos. Por um longo tempo, olhei tudo ao meu redor e repudiei. Repudiei a casa, a comida, os pais e até a mim. Joguei-me na cama e foi só, só frustração, desafeto e sentimento de culpa, vazio. Descobri que eu era vazia e que tudo o que eu fazia era nada. João Pedro e todas aquelas crianças estavam ali, ao alcance dos meus olhos, e eu não podia fazer nada, inútil.

Prometi a mim que voltaria lá sempre que fosse possível. Acredito que o sentimento de culpa não me deixaria descumprir a promessa. E eu voltei. Vi muitas crianças chegarem, poucas partirem e passei a cuidar da saúde delas porque isso me fazia bem.

João Pedro deixou o orfanato aos 14 anos e eu adoraria dizer que ele encontrou um lar, estudou, é amado e feliz, mas não tenho notícias suas e não sei dizer se ele entrou para o mundo das drogas e do crime, ou das universidades. Não sei, sequer, se ele está vivo. Eu? Eu não podia fazer nada.

Anos e anos passados, alguns cabelos brancos, médica de sucesso, grande prestígio social, 3 filhos adotados dos quatro que tenho, 8 netos, mas mesmo assim, ser humano falido. Porque naquele dia, ao matar os sonhos de João Pedro, tornei-me órfã do mundo, eternamente vazia.

4 comentários:

Sidney Andrade disse...

hum, projeção é muito perigoso...

veja só como as coisas são, hein... pro órfão ou pro filhinho de papai, a vida é dura pra todo mundo mesmo. E os problemas dos outros são sempre mais 'resolvíveis' que os nossos.

Projeção é mto perigoso...

bjin...

Rousi disse...

Não é uma questão de projeção, P. Sherman (Sidney)... é uma questão de Rousi.

"Projeção é mto perigoso..."
LOGO: Rousi é muito perigosa? kkkkkkkkkkk

Pode até ser perigoso... e é verdade que a vida é dura para todo mundo...

Mas eu? Não quero dizer que não pude fazer nada!

Beijos meus.

herbeth disse...

;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;;

Elvis disse...

Rousi me disse que seus textos eram egocêntricos. Talvez sejam. O certo é que, neste texto, ela me "emprestou" os seus olhos para que eu enxergasse uma realidade que estava a pequena distância de sua casa.

Amei!!!

 
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