


A lua, envergonhada, se escondeu ao ver o moço simples que cantava, com a ponta dos dedos, versos singelos de emoção revisitada.
Se eram as cordas a imitar as batidas do coração ou o contrário, pouco importa. Na madrugada morna, era possível encontrar qualquer sensação solta ou perdida entre papéis e pensamentos.
O tempo continua usando os mesmos truques. E, às vezes, parece que me deixo seduzir de propósito. Só para me sentir iludida. Só para me fazer pensar que não pensar me tornará ingênua.
Quero meu ouro, mesmo que seja de tolo. Encontrar o velho, estranhar o que é novo e fazer do inusitado um velho conhecido. É que gosto de rimas estranhas e sei que meus afetos são complexos, contudo, se necessário, posso desenhar para quem for disléxico.
Não quero ter a alma doída nem as emoções calejadas. Já não me importo em parecer piegas. Quero de volta a pretensão maliciosa do olhar desconfiado e o desejo de sentir tudo de uma vez sem me preocupar se vai sobrar um pouco para mais tarde. Quero poder acreditar que “os teus olhos têm a cor dos meus sonhos”.
Ontem à noite, a lua veio ouvir que não existiriam mais aquelas noites. A poesia aquietou-se, a música parou, e fomos embora guardando um pouco para depois.

"Que a força do medo que tenho
Que a morte de tudo em que acredito
(Metade - Oswaldo Montenegro)
Decidir é complicado. Nunca fui a melhor nem a pior aluna da turma, mas sempre soube que queria ser médica, mesmo tendo feito meu primeiro vestibular para enfermagem. Passei e cursei dois anos, até o dia que me perguntei o que eu tinha feito do meu sonho. Eu estava feliz, porém incompleta. Queria mais, chorei por mais e decidi lutar por muito mais.
Não esperava que fosse fácil, mas não tinha noção das minhas limitações. Poucos acertos e incontáveis erros me levaram a quatro anos de tentativas frustradas. Culpar a ansiedade, o estado emocional ou qualquer adversidade que tenha acontecido durante esse período pode até ser cômodo, um bom argumento, todavia nem de longe justifica minhas falhas. E falhas são erros, defeitos que carecem de correção, não de explicação.
Minha caminhada é repleta de tombos e diante do último quase sucumbi. Estudar tinha perdido a graça, passou a ser obrigação e não um prazer. A alegria de dizer que queria medicina deu lugar ao sorriso amarelo de quem já não sabia mais.
Não foi fácil olhar para as pessoas que me amam e dizer que não consegui. A nostalgia deixada pela sensação de impotência não me permitia respirar e tudo o que consegui foi chover de tristeza. Quis fugir para não ter de encarar o fracasso, mas fiquei e, tentando apalpar o que anseio, recomecei.
Hoje, tenho voltado a sorrir e a me divertir coma pilha de livros e de papéis ao meu redor sem deixar de sorrir para o resto do mundo, pois aprendi que a felicidade não está em um só momento, ela acontece um pouquinho todos os dias.
Onde está a linha tênue entre o sonho e a ilusão? Eu não sei, mas sei que se ainda não deu certo é porque tudo o que fiz não foi tudo o que posso. Cada batalha me fortalece para a próxima e desistir seria aceitar que não sou capaz, e eu sei que posso ir além.
